À primeira vista, o levante das sensibilidades injuriadas pelas cenas virulentas, difundidas por quase todos os veículos de imprensa, ocorridas na ação de desocupação dos moradores do Pinheirinho pela Polícia Militar atesta uma reprovação em massa à ação de desocupação em si. Fato novo, nessa massa se ouve desta vez a voz de pessoas pertencentes a uma camada média tradicionalmente letárgica da cidade de São Paulo.
Essa camada, vaidosa da sua notável capacidade de sobrevoar conflitos sociais os mais diversos e universais – porquanto corajosa e virilmente sóbria para o trabalho e cínica para a vida social –, consegue apenas, porém, contra as próprias expectativas de que agora se surpreende, desaguar numa condenação tímida e difusa dos excessos policiais.
Subjetivamente, cada qual se persuade de que aquela população deve e merece ficar no lugar de onde está sendo alijada; mas, condenando o efeito sem criticar a causa, passa ao largo do fundamental. Nisto o paulistano letrado é um especialista. Na sua panca cosmopolita, ele é capaz de fazer uma colagem conveniente de máximas da cultura ocidental e compor, à guisa de orientação ética pessoal, um preceituário que deve presidir ao pensamento de modo a liberá-lo de qualquer sugestão da realidade à formulação de uma crítica profunda. Sua conduta é radicalmente adaptativa.
Convocado, contudo, diante das cenas de brutalidade, lamenta tudo como o ocaso – para ele confirmado desde o primeiro homem – da ação e da humanidade. O caráter grandiloquente desta metafísica sentenciosa escamoteia um prazer sádico com a sua sabedoria enfunada do imemorial, que, aliás, tem o proveito de dispensar seu portador de tudo quanto destoe do espiral de misticismo erotizado de que se nutre sua metafísica das horas vagas.
Quando rompe, não obstante efemeramente, com o ritmo sedutor e sereno das convicções pessoais, levadas a morno pela sucessão dos dias cansados, vê-se perdido na reprovação daquelas cenas. Aquilo que deveria confirmar sua visão burlesca da generalizada “era da perfeita pecaminosidade” (Fichte) – modo pelo qual, ao contrário de Fichte, se concede a licença universal para fazer no entanto exatamente o que se espera dele –, justamente aquilo o tira do torpor e o vindica uma crítica radical. Incapaz, inerme e insuflado oráculo da sabedoria ultramundana – que reproduz, numa elevação teológica, o campo de guerra prosaico dos homens competidores na sua ânsia pelo ganha-pão e fantasia –, serve-se apenas da surda afinidade que emerge contra a violenta dominação exibida na desocupação. Ir ao fundamento seria suicídio ideológico para este espécime. Criticar a dominação de classe e a totalidade do capital como esfera determinante da vida social, de cujo influxo ele se arroga liberto como de uma praga inferior, mundana, materialista, exigiria a reabilitação de tudo aquilo a cuja negação ele consagra a vida após o trabalho diário. Se porventura esse sujeito tivesse tal revelação, de um golpe ele se daria conta, embora sem saber ao certo como proceder, de que tudo está em jogo naquele pedaço de terra barrenta. Esclarecido, ele põe em cheque todos os deuses, a sociedade inteira, toda moral e qualquer resistência – menos o fundamental.
Essa camada, vaidosa da sua notável capacidade de sobrevoar conflitos sociais os mais diversos e universais – porquanto corajosa e virilmente sóbria para o trabalho e cínica para a vida social –, consegue apenas, porém, contra as próprias expectativas de que agora se surpreende, desaguar numa condenação tímida e difusa dos excessos policiais.
Subjetivamente, cada qual se persuade de que aquela população deve e merece ficar no lugar de onde está sendo alijada; mas, condenando o efeito sem criticar a causa, passa ao largo do fundamental. Nisto o paulistano letrado é um especialista. Na sua panca cosmopolita, ele é capaz de fazer uma colagem conveniente de máximas da cultura ocidental e compor, à guisa de orientação ética pessoal, um preceituário que deve presidir ao pensamento de modo a liberá-lo de qualquer sugestão da realidade à formulação de uma crítica profunda. Sua conduta é radicalmente adaptativa.
Convocado, contudo, diante das cenas de brutalidade, lamenta tudo como o ocaso – para ele confirmado desde o primeiro homem – da ação e da humanidade. O caráter grandiloquente desta metafísica sentenciosa escamoteia um prazer sádico com a sua sabedoria enfunada do imemorial, que, aliás, tem o proveito de dispensar seu portador de tudo quanto destoe do espiral de misticismo erotizado de que se nutre sua metafísica das horas vagas.
Quando rompe, não obstante efemeramente, com o ritmo sedutor e sereno das convicções pessoais, levadas a morno pela sucessão dos dias cansados, vê-se perdido na reprovação daquelas cenas. Aquilo que deveria confirmar sua visão burlesca da generalizada “era da perfeita pecaminosidade” (Fichte) – modo pelo qual, ao contrário de Fichte, se concede a licença universal para fazer no entanto exatamente o que se espera dele –, justamente aquilo o tira do torpor e o vindica uma crítica radical. Incapaz, inerme e insuflado oráculo da sabedoria ultramundana – que reproduz, numa elevação teológica, o campo de guerra prosaico dos homens competidores na sua ânsia pelo ganha-pão e fantasia –, serve-se apenas da surda afinidade que emerge contra a violenta dominação exibida na desocupação. Ir ao fundamento seria suicídio ideológico para este espécime. Criticar a dominação de classe e a totalidade do capital como esfera determinante da vida social, de cujo influxo ele se arroga liberto como de uma praga inferior, mundana, materialista, exigiria a reabilitação de tudo aquilo a cuja negação ele consagra a vida após o trabalho diário. Se porventura esse sujeito tivesse tal revelação, de um golpe ele se daria conta, embora sem saber ao certo como proceder, de que tudo está em jogo naquele pedaço de terra barrenta. Esclarecido, ele põe em cheque todos os deuses, a sociedade inteira, toda moral e qualquer resistência – menos o fundamental.